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Governo de Santa Catarina mostra protagonismo na construção da política estadual de Economia Azul após workshop multissetorial

Encontro promovido pela Semae reuniu especialistas, setor produtivo, academia e poder público para discutir critérios de sustentabilidade, planejamento costeiro e governança. A proposta é criar um grupo de trabalho multissetorial de economia azul.

Santa Catarina avançou na articulação para construir uma política estadual de Economia Azul com a realização do 1º Workshop de Economia Azul do estado. Promovido pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e da Economia Verde (Semae), nos dias 20 e 21 de outubro, em Florianópolis, o encontro reuniu especialistas, representantes do poder público, da academia e dos setores produtivos para discutir critérios de sustentabilidade e caminhos para integrar desenvolvimento econômico, conservação ambiental e planejamento costeiro. Entre os encaminhamentos, foi proposta a criação de um grupo de trabalho multissetorial de para aprofundar as discussões e contribuir para a elaboração da política estadual de transição para a economia azul.

“Conseguimos a participação de todos os setores motores da economia azul em Santa Catarina e saímos daqui com o compromisso de criar um grupo multissetorial para discutir essa política, de forma articulada e integradora, com a sociedade civil, a academia, o setor produtivo e o poder público das três esferas. A ideia é pensar quais critérios, indicadores, normas e modelos de governança são necessários para que Santa Catarina continue com a competitividade que tem, ao mesmo tempo que garante a qualidade ambiental, a justiça territorial e o acesso aos recursos naturais para as futuras gerações”, destacou o secretário de Estado do Meio Ambiente e da Economia Verde, Guilherme Dallacosta.

Com o tema “Diálogos estratégicos para a política estadual”, o workshop reuniu representantes dos cinco setores motores da Economia do Mar em Santa Catarina: pesca industrial e artesanal, portos, maricultura, indústria náutica e turismo. O objetivo foi discutir caminhos para a transição da Economia do Mar para a Economia Azul, incorporando critérios de sustentabilidade, inclusão social, inovação, tecnologia e governança às atividades econômicas relacionadas ao oceano.

“Não temos como pensar em Economia Azul sem juntar todos os atores que participam desse processo, sem reunir, em uma mesma sala, os diferentes setores para discutir temas comuns. A partir desse encontro, vamos trabalhar ainda mais de forma conjunta para avançar na política estadual de Economia Azul, estabelecendo critérios e colocando-os em prática, com a colaboração de todos”, ressaltou a diretora de Recursos Hídricos, Economia Verde e Qualidade Ambiental da Semae, Gabriela Brasil.

Sustentabilidade e planejamento para o desenvolvimento

A programação contou com especialistas que abordaram a relação entre o oceano, as atividades econômicas, o planejamento territorial e a sustentabilidade. Entre os destaques esteve a professora Marinez Scherer, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e enviada especial de Oceanos para a COP30, que falou sobre a importância da saúde dos ecossistemas costeiros e marinhos para a economia e o equilíbrio climático.

Marinez destacou que a Economia Azul exige mais do que o desenvolvimento de atividades relacionadas ao mar: é necessário incorporar sustentabilidade, justiça social e equidade na distribuição dos benefícios. Para ela, Santa Catarina reúne condições para se tornar referência nacional na transformação de atividades já consolidadas em modelos mais sustentáveis.

“Precisamos de um oceano saudável para manter as atividades econômicas. A zona costeira e o oceano devem ser planejados de maneira sustentável e ter uma gestão responsável. Caso contrário, não existe Economia Azul e, até aquelas atividades que não seguem esse modelo, podem ter dificuldades para continuar se desenvolvendo”, ressaltou.

A professora também chamou a atenção para os efeitos da falta de planejamento e das mudanças climáticas no litoral, como erosão, inundações, restrições ao cultivo e comercialização de moluscos em situações de contaminação da água e problemas de balneabilidade nas praias. Segundo ela, políticas públicas, ordenamento territorial e soluções baseadas na natureza podem contribuir para enfrentar esses desafios em setores como turismo, pesca e transporte marítimo.

O workshop também contou com a participação do professor Thauan Santos, do Programa de Pós-Graduação em Estudos do Mar da Escola de Guerra Naval, no Rio de Janeiro, e líder do Grupo Economia do Mar (GEM). Ele apresentou referências conceituais e experiências relacionadas à construção de políticas públicas para o setor, com destaque para a iniciativa fluminense. Thauan ressaltou que, embora o tema esteja ganhando força no Brasil, o país ainda não conta com uma política ou estratégia nacional com definições e dados oficiais para todo o território, o que abre espaço para iniciativas estaduais.

“Participar deste evento em Santa Catarina, em particular em Florianópolis, foi interessante não apenas para trazer algumas discussões e reflexões conceituais, a exemplo da diferença entre Economia do Mar e Economia Azul, como para explicitar o que deu certo e o que não deu certo no contexto da política de economia azul que estamos implementando no estado do Rio de Janeiro. Compartilhar essa experiência pode ajudar Santa Catarina a avançar mais rapidamente, aproveitando o que funcionou e evitando repetir erros que já identificamos ao longo desse processo” , afirmou Santos.

O protagonismo do mar

Outro destaque foi a participação da professora Andréa Carvalho, do Instituto de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), referência nos estudos sobre o Produto Interno Bruto (PIB) do Mar e a Economia Azul. A pesquisadora apresentou uma metodologia para mensurar a dimensão econômica das atividades relacionadas ao mar e seus efeitos sobre outras cadeias produtivas e regiões do de Santa Catarina e trouxe dados focados em nosso estado.

Segundo as estimativas apresentadas, a contribuição econômica total das atividades relacionadas ao mar em Santa Catarina alcançou R$ 17,9 bilhões, considerando efeitos diretos e indiretos, o equivalente a 6,25% do PIB estadual. As atividades também estavam associadas a cerca de 249,6 mil ocupações, ou 5,9% do emprego no estado. Os dados utilizados no estudo referem-se a 2018 e 2019.

Andréa destacou que a mensuração permite compreender não apenas as atividades desenvolvidas na costa, mas também os efeitos dessas cadeias produtivas sobre municípios do interior. “Primeiramente, precisamos conhecer essa realidade para, então, planejar. Não conseguimos preservar aquilo que não conhecemos. Por isso, precisamos compreender o que é a Economia Azul, tanto conceitualmente quanto em relação ao seu recorte geográfico e à realidade econômica do estado. A partir desse entendimento, o próximo passo é quantificar essa economia na zona litorânea, mas também seus impactos no interior do estado. Precisamos compreender sua dimensão dentro do território estadual e identificar as cadeias produtivas que fazem parte dela, sobretudo as cadeias indiretas que acontecem longe da costa, mas que sem ela não existiriam”, afirmou.

A programação também incluiu a apresentação de resultados preliminares inéditos de estudos sobre o Planejamento Espacial Marinho em Santa Catarina, ampliando o debate sobre o uso ordenado do espaço costeiro e marinho e a compatibilização entre atividades econômicas e conservação ambiental.

Setores produtivos discutem desafios e oportunidades

Além das apresentações técnicas, o evento promoveu dois painéis no formato “Direto ao ponto”, com perguntas diretas, respostas objetivas e participação de especialistas e representantes dos setores envolvidos. O primeiro, conduzido pelo secretário do Meio Ambiente e da Economia Verde, Guilherme Dallacosta. O painel discutiu os instrumentos existentes e as medidas necessárias para viabilizar a transição da Economia do Mar para a Economia Azul. O segundo reuniu representantes da pesca marinha e industrial, da maricultura, do turismo costeiro e marinho e da indústria náutica para discutir desafios, conflitos e oportunidades que uma economia mais azul pode trazer para cada atividade.

As discussões foram complementadas por oficinas participativas, nas quais os participantes debateram critérios iniciais de sustentabilidade, aspectos socioeconômicos, inovação, tecnologia e governança, além de lacunas regulatórias e necessidades de planejamento. Para a gerente de Integração e Planejamento Ambiental da Semae, Monica Koch, o encontro representa um passo importante para organizar uma agenda comum entre os setores e estabelecer bases para a política estadual.

“Construir uma política de Economia Azul exige diálogo, planejamento e participação. O workshop permitiu reunir diferentes perspectivas, identificar desafios comuns e iniciar a discussão sobre critérios que considerem tanto a sustentabilidade das atividades quanto sua importância econômica e social para Santa Catarina. O próximo passo é aprofundar esse trabalho de forma integrada, para que as contribuições dos diferentes setores ajudem a orientar a construção da política estadual”, destacou.

A proposta de criação do grupo de trabalho multissetorial prevê a participação de representantes da sociedade civil, do setor produtivo e do poder público. A iniciativa busca aprofundar os critérios discutidos durante o workshop e contribuir para a elaboração de uma proposta de política estadual de Economia Azul.

Economia do Mar em Santa Catarina

A construção dessa agenda considera a relevância econômica das atividades relacionadas ao mar para Santa Catarina. O estado reúne cerca de 240 mil trabalhadores formais, mais de 23,5 mil estabelecimentos e massa salarial mensal de R$ 1,158 bilhão nesses setores. Além disso, 75,4% da população catarinense vive a até 150 quilômetros do litoral, o que reforça a abrangência econômica e social dessas atividades.

Além disso, Santa Catarina é líder nacional em diferentes segmentos. Na pesca, concentra 45% dos empregos formais brasileiros do setor, ocupa a primeira posição em empregos formais na pesca e é responsável pela produção de 80% do pescado processado consumido no país. Na maricultura, responde por 93% da produção nacional de moluscos. No setor portuário, os terminais catarinenses movimentaram 2,93 milhões de TEUs em 2025, o equivalente a 19,1% dos contêineres movimentados no país.

Na indústria náutica, o estado concentra 74% da produção brasileira de embarcações de esporte e lazer destinada à exportação, enquanto o turismo costeiro e marítimo também tem papel relevante na atividade econômica estadual, sendo o turismo de sol e mar responsável por 93% do PIB catarinense gerado pelo setor. A dimensão dessas atividades reforça a importância de integrar desenvolvimento econômico, planejamento e conservação dos ecossistemas marinhos. A proposta da Economia Azul é avançar nessa direção, estabelecendo critérios que contribuam para a sustentabilidade dos setores, a segurança jurídica, a competitividade e o uso responsável dos recursos naturais, com benefícios para as atuais e futuras gerações.

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