Branding Imagem
Branding Imagem

CIDADANIA

GERAL

SEGURANÇA

Grupos reflexivos para homens autores de violência avançam em Santa Catarina e ampliam estratégia de prevenção

Iniciativas promovem reflexão sobre masculinidade, responsabilização e mudança de comportamento; na Capital, índice de reincidência entre participantes é inferior a 5%

O enfrentamento à violência contra a mulher exige mais do que a punição dos agressores. Em Santa Catarina, os grupos reflexivos voltados a homens autores de violência vêm ganhando espaço como uma estratégia de prevenção e responsabilização, buscando atuar diretamente sobre os comportamentos e padrões culturais relacionados à violência de gênero.

Dados preliminares da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica (Cevid), do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), apontam a expansão dos grupos reflexivos no Estado.

Em 2022, eram 32 grupos. Atualmente, são 62. A expansão ocorre por meio de iniciativas que envolvem o TJSC e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), entre elas o projeto Ágora.

Como funcionam os grupos reflexivos

À frente do projeto Ágora está  Michelle Hugill, supervisora da iniciativa e servidora do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Michelle de Souza Gomes Hugill atua como supervisora e uma das principais figuras do Projeto Ágora, iniciativa do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Ela também exerce funções na Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cevid).

Segundo ela, o projeto é resultado de um convênio entre o TJSC e a UFSC, por meio do grupo Margens, e tem como objetivo desenvolver grupos destinados a homens encaminhados pelo sistema de Justiça a partir de medidas protetivas.

“A ideia é que esses homens entendam quais são os atos violentos que estão cometendo e mudar sua forma de relacionamento tanto com as mulheres quanto com as outras pessoas da sua convivência.”

Reflexão e responsabilização

A supervisora explica que muitos homens chegam aos grupos sem reconhecer a si mesmos como autores de violência.

Em alguns casos, eles se sentem injustiçados pela decisão judicial que os levou ao programa. O processo reflexivo busca justamente criar espaço para que eles possam falar, compreender seus atos e assumir responsabilidade por eles.

Segundo Michelle, ao longo dos encontros é possível perceber mudanças na forma como os participantes compreendem a própria masculinidade. Muitos passam a perceber que não precisam recorrer à violência para afirmar sua condição de homem.

Ela relata ainda que os efeitos podem ultrapassar a relação que originou a medida protetiva, alcançando também os vínculos familiares e sociais.

A proposta também considera a necessidade de trabalhar de maneira diferenciada conforme a gravidade e a natureza da violência praticada.

No projeto Ágora, homens envolvidos em casos de feminicídio ou violência sexual não participam dos mesmos grupos, existindo experiências específicas para esses casos. A preocupação, segundo Michelle, é preservar as condições necessárias para o processo de reflexão.

Olhar também para o autor da violência

Para Nayara Branke, juíza de Direito titular do Juizado de Violência Doméstica da Capital, coordenadora adjunta da Coordenadoria Estadual de Enfrentamento à Violência Doméstica (Cevid) do TJSC e vice-presidenta do Fórum Nacional de Juízes e Juízas de Violência Doméstica e Familiar, os grupos reflexivos representam uma mudança importante na forma de enfrentar a violência doméstica.

Ela destaca que, nos últimos anos, houve avanços no atendimento às mulheres, na divulgação dos diferentes tipos de violência, no acesso à Justiça, nas medidas protetivas e nas ações de prevenção. Entretanto, segundo a magistrada, também é necessário direcionar atenção ao autor da violência.

Nayara ressalta que os grupos permitem trabalhar conceitos relacionados às masculinidades e às formas de relacionamento, criando condições para que o homem reconheça sua responsabilidade.

O encaminhamento pode ocorrer a partir de uma medida protetiva de urgência ou depois de uma condenação. Nesse processo, o participante entra em contato com conceitos que podem ajudá-lo a compreender a violência praticada e a se reconhecer como autor daquele comportamento.

Reincidência inferior a 5%

Na avaliação de Nayara, os resultados observados na Capital demonstram a efetividade da estratégia. Segundo ela, desde 2020 os grupos reflexivos são conduzidos na Capital, dentro de uma trajetória que já possui experiências anteriores em outras regiões de Santa Catarina.

O dado que mais chama a atenção é o índice de reincidência, que, segundo a magistrada, é inferior a 5% entre os homens acompanhados. Nesse caso, o conceito utilizado pelo sistema de avaliação é amplo: considera não apenas a prática de um novo crime, mas também situações como um novo pedido de medida protetiva, novo boletim de ocorrência ou descumprimento de medida protetiva.

Para Nayara, o resultado mostra que a atuação do Estado precisa caminhar em duas frentes: garantir proteção e segurança às mulheres e, simultaneamente, criar condições para que o autor da violência possa modificar seu comportamento.

Punição não basta

As duas entrevistadas convergem na avaliação de que o rigor penal, isoladamente, não é suficiente para enfrentar uma violência que possui raízes culturais e sociais.

Michelle defende uma atuação articulada entre Judiciário, Executivo, Legislativo e sociedade. Para ela, educação, conscientização e responsabilização precisam caminhar juntas. A prevenção deve começar ainda na escola, mas também precisa alcançar os homens que já ingressaram no sistema de Justiça.

Nayara segue a mesma linha e afirma que nenhuma instituição, isoladamente, conseguirá enfrentar um problema tão complexo quanto a violência de gênero.

Para a magistrada, a resposta precisa envolver educação, segurança pública, sistema de Justiça e políticas de prevenção. Ela também destaca a necessidade de estruturas especializadas para o atendimento às mulheres e de ações voltadas à mudança dos padrões culturais que sustentam a violência.

Mudança cultural

Na avaliação de Nayara, a violência contra a mulher está relacionada a uma estrutura social marcada pelo machismo e pelo sexismo, que alimenta a falsa ideia de que o homem pode controlar a mulher, suas escolhas e seus relacionamentos.

“Na realidade nós temos que viver em harmonia e numa relação de iguais”, afirma.

Michelle também chama atenção para a responsabilidade dos próprios homens na transformação dessa cultura. Para ela, a mudança não deve ser uma tarefa exclusiva das mulheres ou das instituições públicas. Homens precisam se posicionar quando presenciam comportamentos violentos ou desrespeitosos entre colegas e amigos.

Segundo a supervisora, não se trata de simplesmente condenar ou “cancelar” alguém, mas de mostrar que determinados comportamentos não são aceitáveis e estimular uma mudança de postura.

ALESC EXPLICA

O que são grupos reflexivos para homens autores de violência?

São espaços de caráter pedagógico e socioeducativo voltados à reflexão e responsabilização de homens envolvidos em situações de violência doméstica e familiar. Os encontros abordam temas relacionados à violência contra as mulheres, masculinidades, relações de gênero e formas de convivência.

Como funciona o projeto Ágora?

Os homens encaminhados passam inicialmente por entrevista e triagem. Aqueles que atendem aos critérios participam de grupos fechados com 12 encontros semanais, nos quais são discutidos temas como masculinidade, parentalidade, Lei Maria da Penha, violência contra as mulheres e hierarquia de gênero.

Quem encaminha os participantes?

O encaminhamento pode ocorrer pelo sistema de Justiça, inclusive a partir de medidas protetivas de urgência ou após condenação.

Os grupos substituem a punição?

Não. Conforme a abordagem apresentada na matéria, os grupos atuam de forma complementar às medidas judiciais, buscando promover responsabilização, reflexão e mudança de comportamento.

alesc

feminicídio

grupos reflexivos

mulher

santa catarina

violência

Branding Imagem
Secret Link